Uma semana depois da publicação da MP 1.394/2026, que proibiu as apostas de quota fixa no Brasil, o número de sites irregulares de apostas disparou. Parte deles copia o nome, o logotipo e até selos de órgãos públicos de marcas que, até 25 de setembro, tinham autorização do Ministério da Fazenda.
O movimento cria um cenário de risco duplo: para você, que pode cair em golpes achando que está numa casa conhecida, e para o mercado como um todo, que perdeu de uma vez a estrutura de fiscalização que separava empresas autorizadas de operações clandestinas.
Resumo
- O que aconteceu: entre as bets clandestinas identificadas estão sites que usam marcas de empresas que eram autorizadas pela Fazenda, como H2bet, Vaidebet e Novibet.
- Quantos sites surgiram: o painel Bet Legal registrou alta de 141% em sites não autorizados depois da MP, e outro monitoramento usado pelas operadoras contou 1.689 novos sites ilegais um dia após a assinatura da medida.
- Como os clones enganam: os sites falsos usam terminações como .games, .site ou .top no lugar do .bet.br, e o clone da H2bet exibe um selo de "autorizado pelo Ministério da Fazenda" e atribui a operação a outra empresa.
- Resposta do governo: uma força-tarefa derrubou 506 sites com indícios de oferta irregular de apostas e identificou 43 canais e grupos no Telegram com 212,6 mil membros.
- Risco para o mercado: as casas autorizadas mantinham sistemas de proteção de marca para derrubar páginas que se passavam por elas, e o acordo de cooperação técnica da ANJL com a Anatel e a SPA foi suspenso.
- Para o apostador: o procedimento oficial de encerramento das bets não exige Pix antecipado para liberar o saldo. O saque voluntário vai até as 23h59 de 5/10, e quem não sacar recebe a devolução pelos bancos entre 9 e 14/10. Site que ainda aceita depósito opera de forma irregular.
Quantos sites falsos surgiram depois da MP
Os números variam conforme o levantamento, mas todos apontam na mesma direção.
- Bet Legal (Iron Security e ANJL): até as 18h de 25 de setembro, quando a proibição foi anunciada, o painel registrava 295 sites não autorizados; o total subiu para 710 até a noite de domingo (27). Foram 415 novos sites depois da MP, uma alta de 141%, e só no sábado (26) apareceram 294.
- Monitoramento usado pelas operadoras que eram autorizadas: 1.689 novos sites ilegais foram identificados no dia seguinte à MP, somando-se a uma lista de 17.651 sites que não deveriam estar funcionando. O pico foi na quinta-feira (24), véspera do anúncio, com 2.317 novos sites, e uma única marca ilegal aparece em 238 links diferentes.
- Governo federal: uma força-tarefa derrubou 506 sites com indícios de oferta irregular de apostas depois da edição da MP. Também foram identificados 43 canais e grupos no Telegram com propaganda de apostas e cassino, somando 212,6 mil membros.
Quais marcas estão sendo copiadas
Entre os sites clandestinos identificados estão páginas que usam marcas que eram autorizadas pela Fazenda, como H2bet, Vaidebet e Novibet. Enquanto as empresas autorizadas usavam o sufixo .bet.br, os sites ilegais aparecem com terminações como .games, .site ou .top.
Um dos casos mais citados é o da H2bet. O site falso exibe um selo de "autorizado pelo Ministério da Fazenda" e afirma ser operado pela Ana Gaming Brasil S/A, empresa que, na verdade, é dona de outras marcas, como a 7K Bet.
A Vaidebet se manifestou por nota. O diretor jurídico Daniel Sitônio classificou o uso da marca fora do domínio autorizado como "puro oportunismo por parte de operadores irregulares", que teriam visto na MP um contexto favorável para levar clientes ao mercado ilegal.
O que a investigação da própria H2 encontrou

Publicação no LinkedIn do Chief Compliance Officer da H2Bet
Rafael Rebelo, diretor de compliance (Chief Compliance Officer) da H2, operadora da H2bet, publicou no LinkedIn os resultados de uma apuração feita pela empresa sobre um dos clones. Segundo ele:
- O domínio foi registrado em 26 de setembro, um dia depois da MP, e seguia ativo no momento da publicação.
- O logotipo foi copiado do servidor oficial, com arquivo idêntico ao original.
- O site exibe selos falsos de "Autorizado pelo Ministério da Fazenda" e do Sigap, além de uma política de prevenção à lavagem de dinheiro que promete reportar operações ao Coaf e à SPA, sem informar CNPJ ou responsável.
- As cobranças Pix eram reais. Com uma conta de teste, a equipe gerou cobranças emitidas por uma Sociedade de Crédito Direto (SCD) por meio de um gateway de pagamento cujo CNPJ consta como baixado na Receita Federal desde maio. A empresa recebedora tem capital social de R$ 10 mil.
- Foram encontrados 45 domínios com "h2bet" no nome, e pelo menos 4 imitam a marca.
- A mesma instituição de pagamento já tinha aparecido em outras três plataformas ilegais investigadas pela empresa, duas delas comunicadas formalmente à SPA no início de setembro.
Para Rebelo, o problema não desapareceu com a proibição: segundo ele, o risco de lavagem de dinheiro migrou para uma cadeia de SCDs, instituições de pagamento, gateways e recebedores com processos frágeis de verificação de identidade (KYC) e diligência reforçada (EDD).
Golpes que usam o fim das bets como isca
Além dos clones de marcas, o período de transição abriu espaço para golpes específicos. Criminosos podem copiar logotipo, cores e menus das casas de apostas para criar páginas parecidas com as originais, e o saldo que os apostadores ainda têm nas contas virou isca.
Uma investigação da empresa ZenoX, divulgada pelo TecMundo, mostra como isso funciona na prática.
Os sites prometiam transformar depósitos de R$ 20 a R$ 30 em R$ 2.000 a R$ 3.000. Depois do Pix, o usuário não conseguia sacar e a plataforma cobrava uma "taxa de liberação" de R$ 30.
Em duas dessas plataformas, o painel interno somava R$ 107.519 em 415 contas, e em outra havia dados pessoais de mais de 3,6 mil usuários. Quando são bloqueados, os domínios trocam de endereço, com nomes parecidos para manter a captação.
O procedimento oficial de encerramento das bets não exige nenhum Pix antecipado para liberar o dinheiro da conta. Qualquer cobrança de "imposto", "taxa operacional" ou "depósito de garantia" para sacar é sinal de fraude.
Como identificar um site falso de aposta
No momento atual, algumas regras simples ajudam:
- Desde 25 de setembro, nenhuma casa autorizada aceita depósitos. Se um site está aceitando Pix para você apostar, ele é irregular.
- A partir de 6 de outubro, nenhum site de apostas pode operar no Brasil. Qualquer página no ar depois disso, com qualquer marca, está fora da lei.
- Confira o endereço. As casas autorizadas usavam apenas o domínio .bet.br. Terminações como .online, .games, .site ou .top são sinal de alerta.
- Desconfie de selos. Um selo de "autorizado pelo Ministério da Fazenda" ou do Sigap na página não comprova nada e é usado justamente pelos clones.
- Veja para quem vai o Pix. Se o recebedor é uma pessoa física ou uma empresa sem relação com a marca, não pague.
- Promessas de ganho rápido e taxa para sacar são características de golpe.
O que fazer se você caiu em um golpe
- Fale com o seu banco o quanto antes e peça a contestação pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED 2.0). Tenha em mãos os comprovantes do Pix e as conversas relacionadas ao golpe.
- Registre um boletim de ocorrência, que pode ser feito on-line na maioria dos estados.
- Não pague por "recuperação de saldo". Especialistas alertam que criminosos podem procurar as vítimas oferecendo esse tipo de serviço em troca de novas taxas.
Se você tem saldo numa casa que era autorizada, o caminho oficial é outro: o saque voluntário pode ser feito até as 23h59 de 5 de outubro, e quem não sacar recebe a devolução entre 9 e 14 de outubro, por meio das instituições financeiras que operam para as casas


